quinta-feira, 19 de abril de 2012

A música e eu.


Depois de muito penar, me decidi.
Decidi casar com a música.

Fui pensando, quebrando a cabeça, relembrando quem esteve sempre ao meu lado quando precisei. Me veio à mente um alguém, e outro e mais alguns.
Triste surpresa foi a minha quando descobri que, de todos os belos seres humanos que habitam meus momentos dificeis, nenhum deles é candidato ao "até que a morte os separe", quando se trata do meu coração...
Então me veio ela.
E aí tudo ficou claro.

Vou me casar com a música.

E quando eu acordar bem solar, correrei para os braços de Vanessa, cantarei seu "Ai ai ai" e sairei rodopiando pela casa, imaginando seus vestidos esvoaçantes a me brindar com aquele jeito, aah, aquele jeito...
E a tardinha tomarei um chá com Chico e não me importarei se com ele vierem "João e Maria" para prosearmos enquanto espero que Roberta chegue, de blusa amarela, ensaiando rimas para um "Belo estranho dia de amanhã".
Sairei ostentando satisfação ao lado de Marcelo, para que todos vejam que até mesmo um "Cara estranho" tem seus dias de glória. Para todos descobrirem, enfim, "De onde vem a calma".
Jogarei conversa fora, num banco de praça, com os "Versos mudos" de Marjorie e quem sabe encontrarei a tão dificil "Resposta ao tempo" que Nana tanto procura quando me encontra.

E, quando eu não estiver tão solar assim, curtirei a minha viuvez, relembrando a "Malandragem" de Cássia, sentindo o "Vento no litoral" que Renato me descrevia tão bem e recordando que, um dia, estive com Cazuza "Por quase um segundo".
Deitarei na grama com Nando e deixarei que ele me explique sobre "Os cegos do castelo", enquanto Rita movimenta "Minha vida" pra deixar tudo fora do lugar.

Talvez esse casamento dure pra sempre.
Talvez acabe logo.
Mas certamente ouvirei a coisa certa, na hora certa, da pessoa certa.

Vou me casar com a música.

 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Distress

Nó na garganta.
Talvez essa sensação tenha se tornado comum com o passar dos tempos, talvez vá passar quando eu não conseguir, novamente, segurar as lágrimas que encherão meus olhos logo mais.
Quem sabe não exista realmente um nó aqui, pode ser que ele tenha sido desfeito pelas circunstâncias.
Mas hoje acordei querendo falar sobre coisas duras e dificeis, querendo fazer alguns pedidos à pessoas que ainda valem a pena.
Não tenho dormido muito bem há dias, meus olhos já apresentam um tom meio escuro que não tinham antes e que sempre achei charmoso nos outros. Em mim está parecendo uma cicatriz, mais uma.
Ao invés de dormir, tenho lido sobre amores felizes, tenho visto borboletas passarem contentes e luas cada vez mais lindas surgirem no céu. Tenho ouvido musicas e visto pessoas e dito mais coisas do que deveria.
E tenho sentido uma enorme angustia.
Angustia por perceber que as coisas que eu escrevo nunca tem destinatário certo, nunca chegarão aos corações que necessito tocar, nunca serão lembradas quando os ventos do tempo passarem.
Angustia profunda ao ver que meu sorriso desbotou, meus cabelos ressecaram e meu olhar morreu. Eu rezei a Deus, todos os dias, que meu olhar não morresse.
Sinto um aperto forte quando lembro do menino que eu era, aquele que todos achavam feliz, carismático. Aquele que dava bom dia, que sorria largo e brincava de pique-esconde aos 19 anos...
Me perdi de mim, aos poucos.
E não tem volta.
E eu, que tanto defendi o amor, suplico que ele nunca mais me apareça.
Que não me traga flores na primavera, que não me aborreça com seu cheiro de manhã e não me engane com suas promessas de que tudo vai terminar bem, porque não vai.
Que ele não me apareça domingo a tarde querendo dividir um chá e muito menos na segunda me deixando contente pra, depois, cortar as asas que me deu e me ver cair ao chão, despedaçado.
Que ele não me prometa sorrisos, não me desperte prazeres e não olhe nos meus olhos.
Porque meus olhos morreram.
Eu suplico ao amor que passe rápido, que não me chame atenção e que me deixe em paz.
Porque eu não aguento mais pensar em sentar na praia de mãos dadas, ir ao cinema ver uma comedia romantica, tomar fanta uva sentado na pracinha pacata, tomar banho de chuva, comer fruta do pé.
Não suporto a idéia de ser feliz pra sempre.
Porque eu não serei feliz.
Não mais.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O sonho.

Eu sonhei que era feliz.
Feliz de um jeito diferente, quase pleno.
Uma borboleta pousou, e voou.
E pareceu pedir pra seguí-la.

Não sei quanto tempo durou
Não sei se foi sonho, sonhado
Mas ela veio e pousou
E me pediu pra segui-la.
E eu corri, fui atrás
E um belo tempo, acordei.

Eu tive um sonho feliz.
E quando acordei, doeu.



domingo, 11 de setembro de 2011

Poema de Fases.

Se me deito ao som do fim
Em lugar algum, no nada
Percebo passar por mim
A sisuda madrugada
Levando o sabor do sim
Deixando a boca salgada

E eu, que brilho não tenho
Nem cor, nem viço, nem alma
Perdi o desejo ferrenho
Pousei no colo da calma
Descolori o desenho
Tirei os sonhos da palma

E agora me faço risco
Singelo, sem ser notado
Às vezes surjo, arisco
N'um canto ermo, isolado
Vou fingindo que é um cisco
O olho lacrimejado

Então vem a febre, e cresce
O rosto avermelha morno
A lágrima transborda, desce
É a dor que tece o contorno
Não grito mais minha prece
Pro sol já paguei suborno

Depois o silêncio aflora
Preenchendo meu vazio
O tempo que voa agora
Tão cheio, causa arrepio
É a vida que vai embora
Rompendo o último fio

O medo me torna abrigo
O coração, a bater
Meu pensamento contigo
Suplica não te esquecer
E é desse jeito que eu sigo...

Minguando, até morrer.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Triste fim d'um jardim florido.



Na primeira vez em que a vi era dezembro, ela usava um vestido grená; saía da igreja carregando meia dúzia de lírios, acompanhada por sua irmã mais velha. Ela tinha um brilho nos olhos diferente de todos os outros brilhos que eu já vira.
Ao passar por mim instantaneamente percebeu meu olhar furtivo, hipnotizado por aquela beleza exótica, aqueles cachos que pareciam deitar-se ao chão e saltar ao céu.
Seu sorriso desabrochou e eu avermelhei.
Foi o começo de tudo.
Todas as manhãs, a partir daquele dia, ficava eu de espreita, esperando que ela colhesse rapidamente os lírios do canteiro a fim de decorar a igreja para as celebrações do fim do ano. E ela, raio de sol que era, não economizava sorrisos nem olhares. Nem brilho.
Era intenso sentir o que vinha crescendo dentro de mim por alguém da qual nem a voz conhecia. Estranhava e tentava apagar da lembrança qualquer pensamento que me levasse a, mais uma vez, me apaixonar por alguém, visto que já sofrera bastante por uma gama de amores não correspondidos e fotos rasgadas no final da tarde.
O fato é que eu não conseguia levantar do banco da praça e simplesmente me retirar sem que antes ela saísse serelepe a me brindar com sua luz, sua alegria, sua paz que de alguma forma habitava em mim silenciosamente – e crescia.
E surpreendi-me quando, de repente, ela me apareceu com um sonho de padaria. Perguntou-me se, por favor, poderia ajudá-la a segurar o buquê que carregava para que ela pudesse comer o doce.
Prontamente tomei as flores para mim e a vi comer o sonho, e sonhei a cada gesto, a cada vez que ela arrumava o cabelo atrás da orelha ou limpava o canto da boca.
Em um instante uma mistura de sensações invadiu-me como um redemoinho devasta o deserto. Aquele cheiro que o vento trazia dos seus cabelos, o suave som de sua voz me agradecendo infinitas vezes por permitir que ela degustasse o seu sonho, enquanto eu sonhava o meu.

Agora nos conhecíamos.


Entre uma mordida e outra, descobri que seu nome era Alice, que tinha 19 anos e gostava de céu azul e cachoeira e água correndo sob os pés. Pude perceber o romantismo e a doçura de quem trabalha por horas retirando a beleza de um jardim e transferindo-a para si mesma.
Precisei que ela acenasse envergonhada na frente dos meus olhos para cair em mim e responder ao seu agradecimento seguido de despedida.
O prazer é todo meu. Foi tudo o que eu consegui dizer enquanto a via se afastar, arrumando cada pétala que eu, desajeitado que sou, tirei do lugar.
A semana brincou de passar correndo e alguns dias depois me vi ao lado de Alice, colhendo com ela as flores e imaginando-as como adereço para seus cachos dourados.Ela também se viu encantada por mim e começamos a comer os mesmos doces e ver juntos o sol se por. Éramos um par feliz e planejávamos coisas para dali a cinco minutos, ou cem anos.
Conforme o ano findava-se, nossa relação ganhava uma dimensão maior, e maior.
Ceamos um ao lado do outro na noite de Natal, e no reveillon ela sugeriu que ficássemos até mais tarde na praia depois dos quinze minutos de cores no horizonte até onde a vista alcançava.
Janeiro transcorreu preguiçoso e nossos laços se estreitaram de acordo com nossas descobertas mútuas. Entendi porque ela pinga duas gotas de leite no café preto, o motivo pelo qual batizou a tartaruga de estimação de Arara e o motivo pelo qual ela escolheu uma tartaruga como bicho de estimação. E fi-la ficar sabendo que cortei o joelho num arbusto de espinhos tentando fita-la por um ângulo melhor. Ela sorriu ao descobrir que sou de gêmeos e ouço Caetano e me presenteou com um livro que narrava as aventuras de uma mulher em busca do auto-conhecimento, viajando pela Índia, Indonésia e Itália.
Vivemos situações divertidas e outras nem tanto, como aquela vez em que derramei mostarda na calça, numa tentativa vã de deixar o sanduíche ao meu gosto, ou quando a avó dela morreu, em maio, e precisei por dias enxugar suas lágrimas e até mesmo no dia dos namorados, quando mandei um grupo de jovens acorda-la em casa com uma serenata romântica e ela não estava em casa, pois tivera que dormir com a irmã que havia acabado de dar a luz.
O tempo brindou-nos com alegrias mil, algumas tristezas e contratempos e uma dose bem generosa de amor. Amor por cada erro, cada defeito. Amor por completo, e por completarmos um ao outro.
Uma espécie de conto de fadas moderno, onde as mensagens de texto no celular supriam um pouco da saudade que batia quando eu viajava ou nos feriados nos quais ela visitava o avô.
E o tempo, o mesmo que nos juntou, decidiu que havia cansado de nós.
Minhas horas pareciam esmagadas entre o amanhecer e a chegada da lua, eu não conseguia mais conciliar viagens de trabalho, família, amigos, faculdade, aula de inglês, academia e amor. Tudo estava bagunçado, revirado, às avessas.
Pequei por me estressar demais e descarregar em Alice aquilo que não cabia em mim. Ela passou a ser uma espécie de muro das lamentações, ouvindo atenta cada reclamação minha, cada xingamento dirigido ao filho-da-mãe que me ultrapassou no trânsito.
Aquilo foi pesado demais para minha flor.
E, em setembro, o final do inverno parece ter congelado algo em mim.
Não quis mais que as flores brotassem na primavera e decidi destampar o ralo que fazia a água correr sob nossos pés.
Foi o final de tudo.
Deixei que Alice partisse com o olho marejado, mesmo que brilhando, e virei as costas para qualquer resquício de felicidade desfrutada, de calor no começo da manhã e beijos carinhosos de boa noite.
Pisoteei o jardim.
Jardim que ela chamava de coração.
Estações sucederam-se, pessoas apareceram e sumiram, sonhos se realizaram, outros se tornaram pesadelos.
E eu amarguei minha decisão por três longos anos.
Semana passada, lembrei de Alice.
Revirei meus armários tentando encontrar seu telefone ou seu novo endereço. Nada constava no meu amontoado de folhas secas e pó.
Viajei ontem até sua nova cidade e foi então que me dei conta do quão idiota fui.
Só ali fiquei certo de que a única coisa que aprendi com todas as minhas decepções amorosas foi a me comportar como todas aquelas pessoas que me feriram, a ser rude, insensível e cruel.
Lembrei das lágrimas que rolaram dos olhos de Alice por minha causa e doeu como uma punhalada no peito.
Recordei cada momento e revivi todas aquelas sensações maravilhosas proporcionadas por ela e engoli a seco.
Não me fiz perceber naquela multidão de pessoas; baixei a cabeça, dei meia volta e cada segundo de ternura vivido pareceu esvair-se de mim, e todos os pedaços do homem maravilhoso que Alice me fazia ser se transformaram em cacos de vidro, em pétalas amassadas. Eu tive convicção de que não a veria mais.
Na última vez em que a vi, ela usava um vestido branco; entrava na igreja com um buquê de lírios, acompanhada pelo seu pai. Tinha nos olhos aquele mesmo brilho, diferente de qualquer brilho que eu já tenha visto e mais intenso que qualquer estrela que um dia eu possa ver.
Estava linda, como sempre, e feliz.
Feliz por estar dando passos emocionados ao futuro, passos certos.
Radiante em sonhar com crianças correndo no jardim florido, com um banho demorado de cachoeira e com café quentinho pingado com duas gotas de leite todas as manhãs.
Estonteante em saber que teria ao seu lado alguém com quem poderia desabafar sem parecer um estorvo, um homem que a entendesse e que não descarregasse nela um punhado de energias negativas todas as vezes que se atrasasse para o futebol.
Ela estava definitivamente feliz.
E alguém a esperava no altar.
Alguém que não era eu.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Soneto Carnal.

Quando teu olhar pousou
N'aquela forma ardente
Deixou desejo latente
Os armários bagunçou

Tirou de mim o sossego
Fez ressurgir o fulgor
E esse teu esplendor
Trouxe a nós um aconchego

E os corpos que roçagavam
Os corações que pulsavam
Esperando pelo depois

Os beijos longos, o abraço
A falta de jeito, embaraço
Uniram em um, o nós dois.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Poema Crônico Número Um

Quando a dor me sucumbir
E de mim nada restar
Quando a chuva não cair
E a lágrima rolar
Quando a lástima existir
Ocupando o meu lugar...

Nada mais importará
O lembrado ou esquecido
E o tempo passará
Sufocando o meu gemido
Que jamais encontrará
A atenção do teu ouvido

E se Deus me permitir
Um desejo reclamar
Certamente irei pedir
P'ro acaso me levar
Sem que eu te veja partir
Planejando não voltar

Só então acabará
Meu caminho dolorido
E a tua alma terá
A paz que havia perdido
Meu inverno findará
Embora nem tenha chovido

E meu rosto vai sumir
Para muito além do mar
Meu silêncio te aturdir
Impedindo de chorar
Por ter feito destruir
O brilho do meu olhar

Meu caminho acabará
Meu mundo terá caido
A lembrança ficará
Do meu desejo perdido
Que deveras pesará
Por ter sido destruído

Quando o riso se esvair
E a saudade apertar
Temo n'alma refletir
Dolorosa e devagar
A angústia que é sentir
A amargura de amar.